confinamento amizade morte educação mulher-negra prazer gravidez relacionamento migração desencontro cotidiano pandemia dignidade memória mãe-terra independência resistência escrita masturbação subjetividade sexismo domésticas desespero acolhimento candomblé maternidade atípica artes visuais diário não-maternidade tarefa depressão psicanálise ruptura línguamãe rigidez humilhação segredo dor fecundação velhice isolamento aleitamento descoberta segundo filho casa feminismo palavra dissidente amadurecimento falta avó menstruação lgbtqia+ dupla-maternidade coletividade doença afeto solidão rotina desmame escuta câncer poesia marginal encantamento babás livro infância sexualidade luta exílio leitura amamentação ressentimento casamento desamparo identidade ciúme pertencimento desmistificação guarda-compartilhada irmãos desilusão fome lei exaustão sexo resiliência raiva violência terra-grávida dinheiro angústia linguagem abandono culpa colo herança oração gênero adolescência cansaço nascimento travesti escravidão saúde mental desejo saudade individualidade sonho acidente submissão apego dança envelhecimento família carta diversão vícios luto fertilidade cozinha parto deficiência transição aborto racismo autocuidado vínculo aprendizado contracepção coragem prostituição fragilidade desejar-é-revide adoção desencanto ritual amor amas-de-leite transgeneridade alegria futuro conflito empoderamento ancestralidade utopia com-a-maré trabalho choro intimidade medo brincadeira pânico abuso umbanda expectativa ausência frustração desamor tempo hospital crueldade separação loucura silêncio puerpério criança mãe-solo hormônios escrita-dos-dias sagrado cuidado marginália medicina dissidência comemoração orgasmo criação conexão distância suicídio descendência contínua corpo inter-racialidade insegurança tradição lesbianidade enlouquecimento
  • .: Quitanda [fragmentos]

    Quitanda [fragmentos]

    Roberta Iannamico
    N.242

    cato um ramo de flores secas

    para minha mãe

    todas as cores

    que a natureza pôs neste momento

    neste lugar

    seguro em uma mão

    outono

    filhas e mães

    se dão oferendas

  • .: Sozinhas no mundo

    Sozinhas no mundo

    Raíssa Galvão
    N.241

     sozinhas no mundo 

     

    eu sou só 

    eu e minha mãe 

     

    eu sou 

    só eu 

    e minha 

     

    eu só minha

     

    mãe, 

    sou eu

     

    sou minha 

    mãe e eu 

    só 

     

    eu sou 

    minha mãe 

    minha mãe 

    só eu



  • .: Desejo de língua que não é da mãe

    Tenho duas filhas. Moramos na parte brasileira da Tríplice Fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina. Somos parte de uma paisagem linguística e cultural guarani, paraguaia, argentina, brasileira. Numas férias na Argentina, a mais velha fez amizade com um grupo de crianças que brincavam em um parquinho. Passou horas negociando sentidos para fazer parte das brincadeiras, enquanto sua irmã mais nova observava caladinha aquela linguagem incipiente.

  • .: Leve como ar [fragmento]

    Leve como ar [fragmento]

    Ada d’Adamo
    N.239

    Essa carta, publicada no jornal La Repubblica em fevereiro de 2008, saiu do meu peito como um grito. Há algum tempo, se reacendera a controvérsia em torno da Lei nº 194, que regulamenta o aborto, e os antiabortistas haviam voltado à briga com suas batalhas em defesa da vida. Debates, declarações e proclamações estavam aparecendo na televisão.



  • .: Expedição: nebulosa [fragmento]

    Expedição: nebulosa [fragmento]

    Marília Garcia
    N. 238

    arquivos cardiográficos
    1.
    o coração é o primeiro significante
    ritmado.               diz françoise dolto

    o perigo ao nascer é o silêncio:
    se o bebê não ouve o coração da mãe
    ele pode apagar

    Sem o som ritmado       diz ela
    o corpo desliga
    acaba

  • .: Feitiços: Fazer amor com árvores [fragmento]

    Da casa do ferreiro Karl Schmied, que ficava em uma colina fora dos muros da cidade, tinha-se uma bela vista da floresta situada no vale do rio. Helene adotou o nome do marido apenas formalmente, autodenominando-se Spalt como antes. A floresta a chamava dia e noite, enviando mensageiros à casa do ferreiro. Veados, javalis e castores chegavam às janelas e Helene os alimentava com o que podia, cuidando deles.

    E eles teriam vivido bem juntos, não fosse pela tristeza que Karl começou a sentir logo após o casamento, quando percebeu que não podia possuir sua bela e jovem esposa, porque seu pau falhava. Pau de que ele tanto se orgulhara até então.

  • .: Durante [fragmentos]

    Durante [fragmentos]

    Paloma Vidal
    N. 236

    6.12.10
    durante

    antes de me deitar, o ritual:
    as almofadas na vertical, paralelas o corpo,
    encolhido no canto oposto ao lado em que se
    encontra o berço dele.
    o berço, por sua vez, bem colado à parede.
    um banquinho, uma cadeira e o ventilador
    deveriam também bloquear minha passagem.
    tudo para impedir que durante o terror noturno
    eu chegue até ele e o levante.

  • .: A gorda [fragmento]

    A gorda [fragmento]

    Isabela Figueiredo
    N. 235

    Quando eu era pequena a mamã dizia-me, “és esquerda, és judia”. Eu gostava da mãe que me acossava, me tratava aos repelões, como um bicho que tem de ser domesticado. Gostava porque sim. Era a nossa guerra, o nosso amor ácido. Fazia a minha parte desobedecendo, ignorando proibições e regras, sendo esquerda, judia e tudo o que esperava de mim, não o desejando para mim. A partir do momento em que as Torres Gémeas e o papá implodiram, ou seja, em 2001, eu e a mamã ficámos presas nas nossas particulares cadeias de sangue e tempo, empedernidas nos nossos gumes, conhecendo-nos carnivoramente e incapazes de parar a luta. Não queremos viver assim, mas não sabemos viver de outra forma.

  • .: Garotas em tempos suspensos [fragmentos]

    Na idade na qual ser moça
    coincidia com a minha idade
    o aborto era sussurrado entre amigas
    e a pergunta milenar era
    qual caminho devo tomar para evitar o medo.
    Entre nossa geração e a de nossas mães
    um abismo de mútuos preconceitos
    bastou para que o único diálogo impossível,
    a afásica cumplicidade que nos unia,
    fosse não dizer nunca
    as palavras que não deviam ser ditas.