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  • .: A insubmissa [fragmento]

    A insubmissa [fragmento]

    Cristina Peri Rossi
    N. 233

    Desde muito pequena tive que viver em estado de alerta. Eu era o soldado, a guarda-costas da minha mãe, e essa era uma tarefa monopolizadora e perigosa. Minha mãe era uma mulher assustada, carente de toda proteção que não fosse a minha, uma vez que seu marido – meu pai – era um homem arredio, violento, solitário e perigoso. Não sabia o que era pior: se os gritos do meu pai ou seus pesados, obscuros, tenebrosos silêncios. Eu também tinha medo dele, mas não falava. Não queria aumentar o da minha mãe. Os homens eram mais fortes, mais corpulentos. Tinham músculos verdadeiramente fortes que sobressaíam da roupa e a voz deles era mais grossa.

  • .: De quatro [fragmento]

    De quatro [fragmento]

    Miranda July
    N. 232

    Ele estava certo. Do que eu estava falando? Nossa antiga devoção tomou conta do meu coração de repente, uma queimação dolorosa. Por que eu estava arriscando meu companheiro de longa data, meu lar, por uma energia inominável?

    O pânico deu um salto na minha garganta.

    Imediatamente entendi seu ponto de vista, oitenta por cento dele, no total. Perdão, perdão, me perdoa, respondi, eu te amo, por favor, me perdoa, como se tentasse enrolar de volta um rolo inteiro de papel higiênico. Mas não tinha como voltar atrás; a merda estava feita.

  • .: Boulder [fragmento]

    Boulder [fragmento]

    Eva Baltasar
    N. 231

    Assim que inseminaram a Samsa, ela mudou. A sensação que eu tinha era de estranheza, uma estranheza nômade, nervosa. Vinha dela, a possuía ao mesmo tempo que a excedia, tornava-a radioativa, como se a tivessem inoculado nela, junto com aqueles cristais móveis de vida, aquela sopa desesperada recém-ativada. E o parto não mudou nada, nem a redimiu, nem a trouxe de volta. Nenhum passo para trás: a maternidade é a tatuagem que te fixa e que numera a vida em seu braço, a mancha que inibe sua liberdade.

  • .: A idade da discrição [fragmento]

    A idade da discrição [fragmento]

    Simone de Beauvoir
    N.230 | 2025

    De repente, ele apareceu; fico sempre surpresa ao encontrar em seu rosto, harmoniosamente fundidos, os traços tão dissemelhantes de minha mãe e de André. Abraçou-me com muita força, dizendo-me palavras alegres, e me abandonei à ternura do paletó de flanela contra meu rosto… Soltei-me para abraçar Irene; ela me sorria, com um sorriso tão gelado que me espantei de sentir junto a seus lábios uma face doce e quente. Irene. Sempre a esqueço: sempre ela está presente.

  • .: Caverna e mar aberto: quatro poemas

    Caverna e mar aberto: quatro poemas

    Mônica de Aquino
    N.229 | 2025

    Você arranca uma pequena flor
    presente súbito que traz todos os dias
    para nós

    flor-quase-mato, flor-quase-esquecimento

    viveria talvez algumas semanas
    pendendo sobre a calçada

    flor que não sabe os pormenores de que resulta
    florir, como você não sabe os detalhes
    de que resulta este dia, você
    entrega a flor arrancada, você corre
    para o quarto

    e me deixa a enorme responsabilidade
    cultivar a planta morta

  • .: Tese sobre uma domesticação [fragmento]

    Tese sobre uma domesticação [fragmento]

    Camila Sosa Villada
    N.228 | 2025

    Na infância, o animal materno passava por cima da sua vida, ocupando tudo. Se ela pegasse um resfriado, a mãe fingia uma bronquite. Se ela sentia dor por causa de algum machucado, a mãe tinha enxaquecas apocalípticas. Se estivesse triste, sua mãe tomava três ou quatro pílulas para dormir e fingia seus pequenos suicídios. Quando o pai tentava um movimento para se aproximar da filha, a mãe impunha seus limites e os separava, com um talento para o veneno que teria deixado qualquer sicário sem palavras.

    Essa era a única maternidade que a atriz conhecia. Um território de guerra com sua própria mãe. Lutar por algo no mundo que fosse só para ela, algo imaculado, que nunca tivesse sido tocado pela mãe.

  • .: Cartas travessias

    Cartas travessias

    Flávia Carvalhaes
    N.227 | 2025

    Mãe,

    Desde que Miguel chegou, estou tomada pelas lembranças de nós duas. Vou revisitando detalhes, lacunas, silêncios. Outro dia me lembrei de quando meu irmão partiu e senti medo de que meu filho pudesse em algum momento também decidir que já não valia a pena ficar. Me acalmei ao lembrar que hoje você lê livros por prazer e por escolha e não mais para encontrar a exatidão das palavras.
    Me lembrei de uma cena.
    O relógio cuco avisava que já eram quinze horas e você continuava ali, sentada, lendo mais um livro. Já não sei quantos livros tinha lido desde que Gustavo decidiu que era hora de ir.

  • .: Mãe: A ruptura e o vínculo

    Mãe: A ruptura e o vínculo

    Stephanie Boaventura
    N.226 | 2025

    Há muitos anos, uma tia ardilosamente me contou, em tom de segredo familiar devastador, que minha mãe, quando grávida de mim, havia contemplado a possibilidade de fazer um aborto. A ideia de interromper a gestação, depois eu descobri, circulou por muitas mentes envolvidas no evento, mas sua autoria não foi reclamada por ninguém. O inconfessável, o ato monstruoso! Havia, no entanto, um outro lado dessa história que a ninguém, nem mesmo a minha mãe, ocorreu ponderar: quando descobriu a gestação que culminaria em meu nascimento, ela tinha apenas dezesseis anos.

  • .: Fímbria

    Fímbria

    Pi Rossi
    N.225 | 2025

    Sentadas numas cadeiras azuis de plástico, uma mulher grávida e sua mãe aguardam o chamado do médico. A mulher conserva algo de menina: seu jeito, a roupa rosa bebê com dourado. Está aérea, quase fora de si. A mãe coleciona rugas e o cansaço de uma segunda – talvez terceira – gravidez; zela de perto a filha. Há algo de mãe na menina, ainda que seja apenas um sopro: um murmúrio baixo, distante e incessante em seus ouvidos, que a distrai a todo momento. Penso na minha mãe, que não sabe que estou ali esperando uma consulta também, mas uma consulta diferente. Ou sou eu que me sinto diferente, muito distante daquelas mulheres na minha frente. Eu também tenho medo. E o mesmo nervosismo.