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  • .: A viagem inútil: trans/escrita [fragmento]

    A viagem inútil: trans/escrita [fragmento]

    Camila Sosa Villada
    N. 134 | 2025

    Primeiro vem em forma de histórias infantis. Uma mais importante que a outra. São muitas. Sempre que tem oportunidade, minha mãe me presenteia com um livro de histórias infantis. Conheço todos os clássicos. Ela deita ao meu lado e lê. Com as longas unhas pintadas de vermelho, o esmalte descascando de tanto lavar roupa, de tanto lavar pratos, de tanto limpar a casa e cozinhar, ela me aponta o que vai lendo. Então a leitura entra na minha cabeça sem avisar, sem dizer nada. É impossível dissociar a aprendizagem da leitura dessa unha de esmalte descascado que vai percorrendo palavra por palavra. E por que uma letra é diferente da outra? E por que essa letra “a” é diferente daquela letra “a”? Ela explica tudo.

  • .: A água é uma máquina do tempo [fragmento]

    Não tinha corpo e ainda brincava de bonecas. Lavava com sangue as bacias sujas do parto interrompido. O ventre se contraía e o feto escorregava ainda sem forma a cada gravidez malsucedida. Resíduos que traziam a memória da denúncia. Era o seu jeito de dizer não. A barriga não segurava bebês, ainda era um lugar impenetrável, inviolável, inquebrável. Começou com treze anos aquele aperto. O tempo agora passaria por um funil, estreito conta-gotas. Michaela não daria nenhum filho a Eurico.

  • .: Quarto de despejo: Diário de uma favelada [fragmento]

    Quarto de despejo: Diário de uma favelada [fragmento]

    Carolina Maria de Jesus
    N. 132 | 2025

    13 de maio

    Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.

    … Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz.

    Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair.

  • .: Individualidade, substantivo feminino

    Individualidade, substantivo feminino

    Cora Matos
    N.131 | 2025

    Abril de 2020 foi o último mês da minha vida. Eu tinha acabado de completar vinte anos, de me entender mulher, de me reconhecer no espelho, de decidir que queria fazer faculdade, de me descobrir capaz de ser corajosa. Num segundo eu era gigante, noutro eu era menor que dois riscos rosados em um palito mergulhado num pote de urina. Pode-se morrer e nascer no meio segundo que essas linhas demoram para aparecer.



  • .: Segundo domingo de maio

    Segundo domingo de maio

    Eliane Marta Santos Teixeira Lopes
    N.130 | 2025

    No domingo,
    de presente,
    eu quero
    uma mãe.

    Que seja loura
    que seus olhos
    sejam verdesinzas,
    que seu nariz
    seja nem bonito, nem feio.

  • .: Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita

    Talvez o primeiro sinal gráfico, que me foi apresentado como escrita, tenha vindo de um gesto antigo de minha mãe. Ancestral, quem sabe? Pois de quem ela teria herdado aquele ensinamento, a não ser dos seus, os mais antigos ainda? Ainda me lembro, o lápis era um graveto, quase sempre em forma de uma forquilha, e o papel era a terra lamacenta, rente às suas pernas abertas. Mãe se abaixava, mas antes cuidadosamente ajuntava e enrolava a saia, para prendê-la entre as coxas e o ventre. E de cócoras, com parte do corpo quase alisando a umidade do chão, ela desenhava um grande sol, cheio de infinitas pernas. Era um gesto solene

  • .: Beluga

    Beluga

    Andrea Nathan
    N. 128 | 2024

    O parto do Gustavo foi liso, o que no jargão dos obstetras significa tranquilo, sem intercorrências. Da banheira oval da maternidade, passei à sala cirúrgica. Força, descansa, força, descansa, força, força, força! Lá estava ele, branquinho, corado, túrgido e roliço como uma beluga. Agarrou o peito com voracidade, agitando as pernas e os bracinhos nus.

    As belugas são uma espécie singular de cetáceo. Adaptadas ao ambiente ártico, possuem apenas um orifício respiratório, carecem de nadadeira dorsal, apresentam uma volumosa proeminência frontal. Não podem ser chamadas de golfinhos, nem de baleias.

  • .: Psicanálise e maternidade

    Psicanálise e maternidade

    Vera Iaconelli
    N. 127 | 2024

    O tema da maternidade é central para a psicanálise, seja pela chave edípica, na qual a tragédia de Sófocles1 serve de inspiração para Freud, seja pelo aporte que psicanalistas como Melanie Klein trouxeram sobre a crucialidade das relações precoces.

    O mito explorado por Sófocles se presta a ilustrar as ideias do inventor da psicanálise porque trata da busca da identidade, de respostas sobre nossa origem e sobre quem somos. Édipo não sabe que é filho de Laio e de Jocasta e, portanto, não sabe que matou inadvertidamente o próprio pai ou que desposou e teve filhos com a própria mãe.

  • .: Enquanto [fragmento]

    Enquanto [fragmento]

    Maria Carolina Fenati
    126 | 2024

    São os meus seios que dizem que tenho filhas. Quando me olho no espelho, quando visto o maiô, quando minhas meninas se deitam no meu colo como se fossem bebês e saltam dele crescidas e alegres, quando desejo e sou desejada por alguém – meus seios dizem que tenho filhas. Das duas vezes que engravidei, eles ficaram enormes antes que eu soubesse que na barriga havia uma bebê. Quando ainda sentia vertigem por estar grávida, sonhei que meus seios eram feitos de pedras preciosas que rolavam umas sobre as outras e entre elas brotava o leite. Começando pelos seios, a maternidade me envolvia, e o que eu imaginava antes sobre estar grávida dissipava-se como poeira.