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  • .: Maternidade [fragmento]

    Maternidade [fragmento]

    Sheila Heti
    N.107 | 2024

    Transando, mas já bem sonolentos, no meio da noite, fiquei com medo de que Miles acidentalmente gozasse dentro de mim. De repente, aquilo me pareceu uma pena de prisão — uma coisa terrível que se abateria sobre nós, sem retorno, o oposto do meu desejo, toda a esperança esvaída. Eu vi nós dois, com nossos sonhos destruídos.

  • .: Trilogia de Copenhagen [fragmento]

    Trilogia de Copenhagen [fragmento]

    Tove Ditlevsen
    N.106 | 2024

    A infância é longa e estreita feito um caixão e não dá para escapar dela por conta própria. Ela está ali o tempo todo, e todos podem vê-la tão claramente quanto se vê o lábio leporino do Belo Ludvig. Com ele acontece o mesmo que com a Lili Bela, que é tão feia que não dá para acreditar que algum dia ela teve uma mãe. Tudo o que é feio ou mal-acabado a gente chama de belo, ninguém sabe por quê. Não dá para escapar da infância e ela nos acompanha como um cheiro. Dá para percebê-la em outras crianças, e cada infância tem seu próprio cheiro.

  • .: Imunidade – germes, vacinas e outros medos [fragmento]

    Nas semanas seguintes ao nascimento do meu filho, um vento de março soprou do lago e atravessou nosso apartamento, onde todas as noites eu ficava sentada por horas, numa cadeira de balanço de madeira dura, balançando meu bebê inquieto e olhando as janelas pelas quais mal conseguia ver as sombras dos galhos das árvores sacudindo ao vento. A cadeira rangia, o vento gemia, escutei uma batida no vidro e um bater de asas em torno do peitoril, e tive certeza de que um vampiro estava lá, tentando entrar.

  • .: Autobiografia da minha mãe [fragmento]

    Autobiografia da minha mãe [fragmento]

    Jamaica Kincaid
    N.104 | 2024

    Observar qualquer ser humano desde a infância, ver alguém surgir, como uma nova flor em botão, cada pétala primeiro enrolada bem apertada nas outras, e depois o afrouxamento natural e o desvelamento, a abertura em uma floração, a vida dessa floração, deve ser algo incrível de se ver; observar a experiência se acumular nos olhos, nos cantos da boca, o desabar da testa, o peso no coração e na alma, a aglomeração de gordura na cintura, nos peitos, o desacelerar dos passos não pela velhice mas apenas pela cautela da vida — tudo isso é algo tão maravilhoso de se assistir, tão maravilhoso de se ver

  • .: Canção da manhã

    Canção da manhã

    Sylvia Plath
    N.103 | 2024

    O amor faz você funcionar como redondo relógio de ouro.
    A parteira bateu em seus pés, e seu grito nu
    Tomou lugar entre os elementos.

    Nossas vozes ecoam, exaltando sua chegada. Estátua nova
    Num museu arejado, sua nudez
    Assombra nossa segurança. Ficamos ao redor, brancos como
    paredes.

  • .: Quase todas sobrevivemos às mães

    Quase todas sobrevivemos às mães

    Deborah Couto
    N.102 | 2024

    Cecília flagrou Eva chorando no banheiro. Um de seus brinquedos de pelúcia estava jogado na privada. Ninguém viu como ele foi parar lá. A mãe pegou a menina no colo e a levou para o seu quarto, disse que não tinha problemas, logo iriam a uma loja comprar um novinho. Eva, que estava inconsolável, foi se acalmando e se voltou a outra distração.

  • .: Pensamentos noturnos

    Pensamentos noturnos

    Louise Glück
    N.101 | 2024

    Há muito tempo eu nasci.
    Já não há ninguém vivo
    que se lembre de mim quando bebê.
    Eu era um bebê bonzinho? Ou
    difícil? A não ser na minha cabeça,
    essa questão está agora
    silenciada para sempre.

  • .: Natal e Órbita

    Natal e Órbita

    Catarina Barros
    N.100 | 2024

    Ela diz que não gosta de sexo: há qualquer coisa naquilo que a envergonha, que a faz sentir-se ridícula. Tudo lhe parece estranho: preliminares, o tamanho do pénis, o arfar do homem, a queda do orgasmo. Tem vergonha do corpo: embora saiba que é bonita, não gosta do peito, caído, um seio mais pingado que o outro. Diz que passa por aquilo porque é o preço a pagar pelo amor que deseja. Se pudesse, em vez de sexo, faria o jantar – um jantar demorado, condimentado, para várias pessoas. O que ela queria era uma família, era muita gente na mesa, as vozes umas em cima das outras, lutando por se fazerem ouvir – e ela também.

  • .: Labor

    Labor

    Catarina Barros
    N.99 | 2024

    Sempre que penso no momento em que descobri que estava grávida, vejo-me em frente ao Centro Comercial de São Marcos, embora saiba que o laboratório era no Cacém, e que foi lá, na sala de espera, que abri o envelope. Mas talvez só tenha agarrado no telefone aí, à saída do supermercado, enquanto subia as escadas exteriores, vinda da paragem do 140. Tinha sido naquele centro comercial que, com quinze ou dezasseis anos, informara os meus amigos de que nunca teria filhos.