vínculo saúde mental medo não-maternidade segundo filho hormônios pânico transgeneridade criança puerpério medicina acidente individualidade exaustão insegurança confinamento apego desencanto corpo descoberta rigidez loucura desencontro desmame maternidade atípica cozinha relacionamento autocuidado pertencimento ritual resiliência desamor conexão dinheiro desejo escuta cansaço umbanda deficiência irmãos ruptura doença orgasmo distância amizade tarefa lesbianidade amas-de-leite línguamãe herança migração adolescência coletividade comemoração gênero sonho feminismo desejar-é-revide dignidade diversão amamentação falta cuidado livro exílio desilusão encantamento marginália palavra dissidente candomblé desespero artes visuais avó violência adoção submissão rotina descendência casa sexualidade ressentimento babás linguagem futuro alegria escravidão brincadeira solidão abuso infância tempo raiva ciúme trabalho educação culpa lei colo mãe-solo choro afeto leitura independência menstruação subjetividade oração saudade aprendizado psicanálise separação expectativa masturbação identidade crueldade silêncio gravidez envelhecimento fome pandemia mulher-negra amadurecimento dança guarda-compartilhada luta domésticas fertilidade angústia família prazer frustração aborto dupla-maternidade parto poesia marginal intimidade mãe-terra enlouquecimento dissidência suicídio travesti coragem terra-grávida sagrado depressão empoderamento desamparo dor com-a-maré aleitamento carta casamento isolamento velhice racismo conflito amor utopia ancestralidade prostituição contínua criação memória humilhação acolhimento resistência sexo morte desmistificação fragilidade transição luto contracepção inter-racialidade tradição escrita nascimento ausência escrita-dos-dias diário segredo lgbtqia+ fecundação sexismo abandono cotidiano vícios hospital câncer
  • .: Rilke Shake [fragmento]

    Rilke Shake [fragmento]

    Angélica Freitas
    N.170 | 2025

    na rua, minha mão
    deslizava por sua cintura, ela
    ria, não dizia nada
    quando dizia era
    não se acostume
    comigo

    logo você
    vai
    embora.

  • .: No lugar de um prefácio

    No lugar de um prefácio

    Anna Akhmátova
    N.169 | 2025

    “Nos anos terríveis da Iejovshtchina, passei dezessete meses fazendo fila diante das prisões de Leningrado. Um dia alguém me “reconheceu”. Aí, uma mulher de lábios lívidos que, naturalmente, jamais ouvira falar em meu nome, saiu daquele torpor em que sempre ficávamos e, falando pertinho do meu ouvido (ali todas nós só falávamos sussurrando), me perguntou:
    – E isso, a senhora pode descrever?
    E eu respondi:
    – Posso.
    Aí, uma coisa parecida com um sorriso, surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.”

    Leningrado 1o/4/1957

  • .: Sobre amor e genética [fragmento]

    Sobre amor e genética [fragmento]

    Luísa Rocha Vasconcelos
    N.168 | 2025

    Comecei a pensar na maternidade e na solidão da minha mãe numa segunda à noite. Ela tem mãe, irmã e sobrinhos, e ainda assim há momentos em que ela não escapa ao abandono que vem junto com o papel de mãe solo – um deles se apresentou logo no início desta semana, às 22h50, envolvendo um carro com documento vencido e uma blitz a dez minutos de casa.

  • .: Contínuo [fragmento]

    Contínuo [fragmento]

    Sarah Manguso
    N. 167 | 2025

    Então me tornei mãe. Comecei a habitar o tempo de outro jeito. Tinha algo a ver com a mortalidade. Continuei escrevendo o diário, mas minha preocupação em relação às memórias perdidas começou a arrefecer.

    Amamentar um bebê cria tanto tempo perdido, vazio. Da mamada noturna do bebê eu não me lembro de nada. Da mamada diurna não me lembro de quase nada.

    Era um nada diferente do nada não registrado dos anos anteriores; esse nada estava ausente de experiências subjetivas. Eu estava ou dormindo ou quase dormindo todo o tempo.

  • .: Um em cada quatro

    Um em cada quatro

    Francesca Cricelli
    N. 166 | 2025

    Aqui na Islândia eu crio os filhos dos outros. Os pais destas crianças não sabem que ajoelhada amparando-os há uma escritora, tradutora, muito menos uma pesquisadora que defendeu um doutorado sobre poesia italiana. Na Islândia, para sobreviver, vendo meu corpo de mãe. Vendo-o por hora. Vendo meu colo, meus braços, meu acalanto, minha paciência e inventividade. Minha capacidade de brincar. Vendo 60% da minha jornada cuidando dos filhos dos outros para poder pagar as contas e criar meu filho.

  • .: Vidas lado a lado

    Vidas lado a lado

    Ana Rafaela de Sena
    N. 165 | 2025

    Minha mãe sempre sabe tudo. O que vamos comer, a hora de brincar, a hora de dormir, por que eu tenho cabelo preto, menos o porquê de meu pai ter ido embora.

    Já perguntei mas ela não me conta. Ela diz que ele decidiu e pronto. Pronto como? O almoço sempre está pronto às 12:00 horas, será que ela quer dizer algo como isso? Deu 18:00 horas e ele quis ir embora?

  • .: Vietnã 

    Vietnã 

    Wisława Szymborska
    N.164 | 2025

    Mulher, como você se chama? – Não sei.
    Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
    Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
    Desde quando está aqui escondida? – Não sei.
    Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
    Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
    De que lado você está? – Não sei.
    É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
    Tua aldeia ainda existe? – Não sei.
    Esses são teus filhos? – São.

  • .: A história de Roma [fragmento]

    A história de Roma [fragmento]

    Joana Bértholo
    N. 163 | 2025

    Decido ir embora. O que presenciei é íntimo, não me diz respeito e, ainda assim, põe-me em causa. Agarro nas minhas coisas. Fico em pé, colada à porta, à espera. Quando Laura volta, trá-lo ao colo, já só mimoso e flente, aninhado no pescoço dela, a mão pequenina enrolada numa mecha do cabelo da mãe.

    — Já vais?! — pergunta, aturdida, os olhos muito abertos.

    Tenho o casaco vestido, calço-me e seguro o trinco da porta. Desculpo-me, saio. A cada lanço de escada me sinto pior. Que atitude péssima. Mas não consigo voltar atrás nem lhe conseguirei dizer nada durante muito tempo.

     

  • .: MAMA: um relato de maternidade homoafetiva [fragmento]

    Amamentar tornou-se um hábito. Faz alguns dias que o Bernardo e a Iolanda nasceram, e eu tenho amamentado dezenas de vezes por dia. Colocar o peito para fora e oferecer a meus filhos é um gesto já incorporado à rotina. Mas a simbologia desse ato tem se transformado diariamente.