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  • .: Mãe ou Filha?

    Mãe ou Filha?

    Izabella Amora
    N.206 | 2025

    A verdade é que em todos esses anos eu muito escrevo sobre ser mãe e quase nada sobre ser filha. Talvez porque ainda não tenha encontrado caminhos confortáveis para remexer no meu próprio líquido amniótico. Talvez porque na maternidade eu encontre um poderoso caminho de autoconhecimento que no lugar de filha ainda não encontrei. É que ser filha me coloca diante de infinitas angústias e perguntas, enquanto ser mãe me traz esperança e me faz adentrar uma correnteza de respostas.

  • .: Notas sobre a fome [fragmento]

    Notas sobre a fome [fragmento]

    Helena Silvestre
    N.205 | 2025

    Eu sei sobre a fome, porque já a senti me atravessar as veias – isso que as pessoas daqui aprenderam que tinha o nome de fome. Conheci o buraco vazio que avança, engolindo todas as beiradas de um desejo que não nasce na cabeça e que precisa de comida, tão forte é esse desejo.

  • .: Canção para ninar menino grande

    Canção para ninar menino grande

    Conceição Evaristo
    N.204 | 2025

    E depois, no decorrer de minha conversa com ela, quando já estávamos nós duas somente, foi que entendi. Era dor sim, a maior. E Juventina sabia qual. Dor de amor, ela me contou mais tarde. Não que estivesse apaixonada. Não, não mais. Não mais. Agora ela só era Juventina. Paixões eram do tempo que ela era Tina.

  • .: Desejar é revide

    Desejar é revide

    Marina Apolinário
    N.203 | 2025

    Penso sobre corpo. Penso sobre o corpo nas minhas lembranças de infância – de quando ele brincava dócil na casa patroa, do choro das estrias por ter crescido demais, do incômodo pela chegada dos peitos que atraíam olhares, do olhar torto quando cheguei nos brancos e contrastei minha pele. Penso sobre corpo, no pudor da igreja e na dureza de aprender a escondê-lo atrás de um trabalho em caso de dor. Uma vez, eu ainda menina, me deram um prestobarba e me pediram para raspar os pelos do sovaco que começavam a despontar. Essa senhora me dava a navalha e dizia: “gente da sua cor pode feder com esses cabelos”.

  • .: Terra grávida

    Terra grávida

    Trudruá Dorrico
    N.202 | 2025

    Erepankî. Ewonkî. Eretekî. Pri’ya nan?
    É dessa maneira que, quando as parentas makuxis vão chegando na casa de uma yonpa (parente), são saudadas e cumprimentadas. Chegue. Entre. Sente-se. Você está bem?

    Assim, repito aqui o mesmo cumprimento que fazem as minhas ancestrais. Chegue nestes poemas, cultivados por mulheres indígenas das nações Makuxi, Guató, Wassu-Cocal, Puri, Potiguara, Aranã, Guarani, Kariri, Galibi-Marworno, Mura, Wapichana, Afuá/Marajoara, Itaquêra. Entre nas palavras ancestrais das dezessete poetas aqui reunidas e sente-se para escutar o pensamento que a partir de suas palavras-flechas lança-se sobre a terra, a gravidez, o endométrio, o útero, os filhos, o sonho, a ausência, conselhos, eventos e sentimentos que circundam sua floresta-vida.

  • .: Conselhos

    Conselhos

    Vanessa Brandão
    N.201 | 2025

    Escuta aqui meu filho
    não se deve perder um dia de sol
    nem se apressar quando bate um vento Cruviana
    nem sair do carro antes daquela música bonita acabar.
    Jamais, entende?
    A não ser que esteja prestes a beijar uma pessoa.
    Pessoas são sempre uma grande experiência
    todas elas têm no coração um lugar chamado sinoatrial
    que gera impulsos elétricos.
    Não há explicação. Simplesmente pulsa.
    Então respeite porque toda pessoa é também um milagre
    e há pessoas bicho, planta, serra.

  • .: Poema do útero

    Poema do útero

    Trudruá Dorrico
    N.200 | 2025

    Eu não vim calma.
    Eu vim rasgando o mundo
    sem anestesia para aplacar
    minha fúria de viver.

    Cheguei ainda fraca –
    No entanto pronta:
    pro mato
    pro mosquito
    pra morte.

  • .: Alcançar com as mãos

    Alcançar com as mãos

    Sony Ferseck
    N.199 | 2025

    Alcançar com as mãos
    o útero da terra
    percorrer com os dedos
    a linguagem da terra
    a fala das pedras
    os grãos da voz
    que a água acalenta.

    Tirar do pó o mistério da existência
    matéria mesma das mãos nas mãos
    das mães do barro
    Koko’ Non.

  • .: E deixar-se parir

    E deixar-se parir

    Aline Rochedo Pachamama
    N.198 | 2025

    Uma pessoa deve renascer durante a vida. Deve encorajar-se a estar no ventre da Mãe Terra e deixar-se por ela parir. Experienciar a força de uma nova luz a cegar os olhos. E, depois, olhar o mundo que não existia antes.

    Pachamama, Inhã Uchô, Mãe Terra, Terra Mãe, Floresta, Pulsar, Gerar, Parir! Somos paridas pela Terra Mãe e precisamos estar em seu útero algumas vezes para entender toda a sua amplitude, generosidade e força. No Útero da Mãe eu estou. Deixo-me gestar, curar e ser parida pela Mãe Inhã Uchô em ciclos que me curam e fortalecem. Eis a intenção deste singelo escrito, desta semeadura.